Emprego ou Trabalho?

Recentemente encontrei no Linkedin o ótimo artigo do Alfredo Passos, com o título “45 anos? Adeus ao mercado de trabalho”.

Concordo com seus argumentos, demonstrando que o etarismo é uma forma de discriminação, ao lado de sexismo racismo.

Ou seja, se você ultrapassou uma certa idade (45, 50, etc…), sua chance de conseguir emprego diminui drasticamente. Nos comentários surgem depoimentos pessoais e emocionais nesse sentido.

Minhas próximas considerações foram inspiradas nesse texto. Temperadas pelos meus 49 anos. Mas especialmente apoiadas numa frase que me acompanha há muito tempo, de autor desconhecido:

“O melhor amigo da mudança é a verdade”.

Mesmo que a verdade nos faça sofrer. Nesse caso, a constatação de que pessoas experientes, talentosas, cheias de energia e ávidas por continuar contribuindo no mercado são descartadas de processos seletivos sem uma conversa sequer. E, para essas, um dos desconfortos que rapidamente se aproxima é o financeiro, além do psicológico.

Mas, sem acolher a verdade, mudar é um desafio intransponível. Ao reconhecê-la, porém, podemos optar por alguns caminhos. E abrir as portas certas.

Por exemplo, lutar contra o preconceito e criar projetos que minimizem seus efeitos. Sou completamente a favor. O site Maturijobs é um ótimo exemplo.

Ou, quem sabe, entender o que as tendências nos ensinam, a realidade nos impõe, e reinventar nossa identidade e atuação profissional.

Isso não se aplica só aos profissionais maduros. Se aplica a todos, daqui em diante, por muito tempo. Vejamos por quê.

“Uberização”, Gig Economy e Plataformas

Gig Economy é uma das principais transformações no mundo do trabalho.

O meio de atuação profissional baseado em “jobs”,“freelas”ou “bicos” tem ganhado força, a despeito de relatórios e estatísticas conflitantes – apontando expansão ou diminuição, de acordo com métodos de pesquisa diferentes.

Via de regra, o surgimento dessa modalidade de oferta e venda de habilidades, da mesma forma que faz um motorista de aplicativo, prenuncia a criação de um ecossistema profissional muito diferente daquele da “carteira assinada”.

Isso dói bem menos para a geração Y, mas não deixa de ser menos verdadeiro para qualquer geração.

Vender projetos gráficos, programação, design, marketing digital, tradução, cálculo, e tantas outras competências e talentos, se tornou possível devido à ascensão das plataformas, na esteira dos avanços tecnológicos.

Segundo a Mckinsey, as plataformas são o modelo operacional preferido por 7 entre as 12 maiores empresas do mundo. Ainda assim, muitas empresas tradicionais são resistentes a adotá-las.

E os paradigmas de trabalho estão se transformando também.

Cito como referência as investigações do Institute for the Future, com especial atenção para a Workable Futures Initiative.

Essa iniciativa: “busca entender padrões de trabalho emergentes e guiar uma geração de plataformas positivas que podem criar oportunidades iguais e favorecer vidas sustentáveis.”

O seu relatório Voices of Workable Futures apresenta várias novas maneiras dos profissionais se relacionarem com o mercado.

Abaixo seguem os termos em inglês, com uma tradução livre:

  • Part-time pragmatist: pragmático de meio período.
  • Savvy consultant: consultor “esperto”.
  • Freelancer: agente livre.
  • Full-time gig worker: trabalhador em tempo integral no modelo gig.
  • Re-entry worker: trabalhador reentrante.
  • Entrepreneur: empreendedor.
  • Hustler: “fazedor de dinheiro”.

Revolução Tecnológica, Automação e Inteligência Artificial

Para complicar, as plataformas, apoiadas na revolução tecnológica em inteligência artificial, também têm se encarregado de fazer melhor do que nós, seres humanos, diversas funções.

Talvez não possamos chamar de preconceito, mas seguramente há uma competição desleal entre robôs / sistemas e seres humanos, em algumas atividades.

Na prática, muitos trabalhos que só nós desempenhávamos já são feitos parcial ou integralmente por sistemas. Melhor e mais barato, diga-se de passagem. As assistentes digitais Bia, Aura, Alexa, Siri e tantas outras que não nos deixem mentir.

Se você tem curiosidade em saber se sua ocupação profissional será substituída nos próximos anos, vale consultar o site: willrobotstakemyjob.com.

Emprego vs. Trabalho

Arrisco algumas conclusões, sem qualquer intuito de serem incrivelmente originais ou muito duradouras:

  • Devemos nos acostumar com a busca por trabalho, pois o conceito de emprego será radicalmente redesenhado, seja pelo avanço tecnológico, seja pelo anacronismo.
  • Precisamos concentrar nossos esforços de desenvolvimento em competências essenciais, que nos diferenciem daquelas que podem ser simuladas por sistemas.
  • Temos que reinventar nossa identidade profissional e inovar nosso modelo de criação de valor para o mercado, para transitar no ecossistema das plataformas e da competição global.

A qualquer tempo, em qualquer idade.

Ciente disso, tenho dedicado um tempo valioso ao projeto Pathmakers, cujo objetivo é facilitar esse processo de reinvenção da identidade profissional.

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